O Esquecimento pela Arte

O assunto é árido, sujeito a controvérsias e formado por matéria comburente. Basta ser trazido a público e tornamo-nos todos versados nele. E as faíscas saltam por todo o lado. No entanto, é um assunto relevante para poucos. E os poucos interessados são apaixonados pelas questões que o envolvem. O assunto é arte. E o caro leitor deve estar a franzir a testa, rugosa ou preenchida com botox, para este pobre mortal. Tenha paciência, porque serão só dois dedos de conversa: não tenho a pretensão de tratar de toda a arte. A intenção é especular sobre a seguinte questão: o que leva o artista a fazer arte?

O caminho que proponho não é um atalho. Até porque outros o trataram com muito mais propriedade, profundidade e inteligência do que este pobre autor. Antes de chegar ao ponto final desta linha de autocarro que percorre territórios acidentados e hostis, escolho inserir na discussão o termo aletheia (ἀλήθεια). Muita gente sabe muito sobre esta palavra grega que não significa, na verdade, Verdade. Não nos termos em que a concebemos hoje em dia. Recorro ao baú das aulas de velharias gregas e introduzo Caronte, que leva os mortos para o inferno, atravessando um rio na sua barca. O nome desse rio é Lethe. Lethe é aquele lugar molhado – por ser um rio – e mítico que se atravessa para chegar ao Hades – o inferno grego. Vale a pena redundar a questão: chega-se ao Hades depois de morto. Mas morto noutro sentido, porque, para os gregos arcaicos, o morrer comporta um sentido de “ser esquecido”, ou, talvez mais propriamente dito, não-ser. Nesse sentido, lethe (Λήθη) é velar, encobrir, o não-ser. Momento oportuno para devolver o termo aletheia à conversa. Porque aletheia é revelar. Revelar o que fora esquecido. Na poesia clássica grega, a ideia de o poeta clamar às musas – as deusas filhas de Zeus e da deusa Memória (Mnemosyne) – para nos contar algo que, porventura, está encoberto, esquecido, é o lugar-comum por excelência. Sem as musas, o poeta é incapaz de recordar os feitos dos grandes heróis do passado. Sem as musas, não há poesia, não há história a ser contada. Sem as musas, não há verdade – aletheia. A história dos gregos arcaicos escreve-se no tempo desta maneira, através da memória resgatada, obviamente, por um mecanismo chamado poesia. Poesia esta que tem muito mais uma dimensão coletiva do que individual. Apesar de se referirem a Homero, este tem uma existência nada subjetiva, quase fictícia.
Em linhas gerais, vale a pena rememorar e resumir o parágrafo acima: esquecer é não-ser; lembrar, ser. Algo um tanto esquemático. Todavia, útil, mais adiante. Confesso que tenho curiosidade sobre o outro assunto proposto anteriormente e não me esqueci dele, que se resume a uma pergunta vulgar: porque fazemos arte? (Ou porque é que alguns fazem arte?) Parece um questionamento tão desgastado e banalizado, mas que comporta uma dimensão coletiva de que poucos se dão conta. Arrisco uma hipótese empírica e especulativa. Para falar de arte, precisamos de falar do artista – uso o termo arte em minúsculas para quebrarmos aquela aura elevada e divina que sempre lhe emprestam. Porque a arte é consequência de alguém, apenas subproduto de mente e corpo, o autor. Por vezes, algum coletivo produz arte, um conjunto de mãos e mentes. Pensemos no cinema, que, sob a perspetiva do aquém-câmara, não nos desautoriza a considerar o autor como tal, pois os autores de uma obra cinematográfica executam pedaços da obra toda e satisfazem-se com essa execução. O artista! Porque é que ele resolveu fazer? Eu diria que há uma vontade inata e intuitiva de perpetuar. Quando registamos algo, queremos que seja perpétuo. Trata-se da nossa marca, do nosso registo. Registamos utilizando a arte, que é, de um modo propriamente dito, técnica. Arte é técnica que utilizamos para registar. Como um marceneiro que talha a madeira, a esculpe e lhe dá a forma de uma mesa. Quando, naqueles momentos cabisbaixos das nossas caminhadas pela cidade, reparamos, nas calçadas, em inscrições de nomes e datas, estamos perante arte pura: técnica aplicada para perpetuar.

Deparamo-nos com um enunciado que diz: “Olhe! Fiz esta calçada. Estive aqui! Existi e existo.” Que motivações levaram o sujeito a registar esse enunciado? Perpetuar-se historicamente? Sim, ele constrói, com esse enunciado vulgar, História. Provavelmente, um recorte histórico de uma micro-história. Não a história coletiva, mas a metonímia do coletivo. Saber a dimensão social dessa escritura na calçada é uma outra tarefa. Por ora, a arte, no sentido de resultado, possui essa potencialidade histórica. Como agente social, o artista precisa de se inscrever historicamente. Diria que ele replica um modelo biológico de perpetuação, um modelo atávico. Traçando um paralelo com a vida, noutras manifestações da existência, temos pais e filhos, uma combinação elementar e natural de perpetuação do clã, evidente no orgulho paterno pela sua prole e na manutenção da sua escrita genética – se não nestes termos tão precisos, de modo metafórico, quando o pai se admira ao ver refletidos em outrem as suas habilidades, trejeitos e aspeto. No ambiente natural, os animais perpetuam as suas espécies, necessária e constantemente. No ambiente cultural, o ser humano procura perpetuar, além dos seus olhos castanhos ou azuis, toda a sua tradição – a linhagem com todos os antepassados e atos heroicos. Arriscaria inserir um conceito abstrato e subjetivo que motiva e justifica essa prática de perpetuação: medo. Movidos pelo medo da morte, do esquecimento, precisamos desesperadamente de nos inscrever no tempo, ou de emprestar permanência àquilo que nos mantém além do corpo físico, que nos mantém etereamente eternos. Todo o ser deseja manter-se enquanto ser – e negar a não-existência (lethe). Imagine que, ao construirmos um texto, ele permeia o coletivo, o social. Digamos que eu, este autor, morra, de preferência depois de terminar este texto, e que estas ideias aqui expostas se espalhem pelo mundo. Mesmo morto, terei uma prova manifesta da minha existência na terra. Quantas vezes nos referimos aos nossos artistas prediletos com uma intimidade própria de velhos amigos? “Da Vinci, meu velho, o que andarás tu a fazer agora? Adorei as tuas pinturas na minha última viagem a França!” E o que nos leva a procurar esse grau de intimidade com alguém falecido há tanto tempo? Insegurança? Solidão? Necessidade de confraternizar e de transpor as portas de um clã tão amplo e fiel? Fazer parte? Considerando que não conseguimos pintar obras tão complexas, queremos, ao menos, fazer parte dessa família?
Medo do esquecimento. O artista, provavelmente de modo inconsciente, procura inscrever-se historicamente, ou inscrever a sua cultura e a do seu clã. Registar em paredes a caça aos animais nada mais é do que a necessidade de registar o discurso histórico e de perpetuar a aletheia, mantendo desvelado o evento da caça com todas as suas nuances ritualísticas. O artista não necessita de perpetuar um filho, mas sim de perpetuar uma obra, para a qual ele diz: “Parla!” A obra, enquanto enunciado componente de um discurso histórico, irá dizer, bradar através dos tempos, a existência do conjunto individual e coletivo de crenças e valores. De algum modo, a inscrição dum pedreiro numa calçada encontra correlação com a escultura do chamado artista, como a de um Da Vinci. O que os diferencia? Permanência e relevância históricas. De um modo simplista, sucesso na empreitada de se tornar eterno enquanto dure.